Coisas e Lugares

 

Sou uma pessoa que sempre gostou de caixas, de gavetas, tanto para descobrir nelas tesouros esquecidos por outros ou por mim mesma, como por prezar as coisas em seus devidos lugares.

Quando pequena sonhei muito com encontrar em gavetas e caixas objetos únicos que alguma história me contassem… Tive a sorte de uma ou duas vezes ver isto acontecer.

Assim na vida mesmo nos instantes mais caóticos, retorcidos e enegrecidos, pude manter minhas “coisas” em seu lugar.

Há coisas que moram em um determinado espaço e jamais deverão ocupar outro, coisas que apenas compartilho com uma pessoa, e não com outra; outras coisas que disponho em prateleiras, para que sejam admiradas, esmiuçadas, entendidas e assimiladas. E essas mais de uma pessoa é convidada a presenciar.

Outras permanecem trancafiadas desde que eu soube realmente o que elas eram, o que causavam, o que diziam, e após esse instante de “te reconheço e sei onde começa teu poder e o meu”, fechei as tampas, bem encaixadas, e não sinto falta do que no seu interior  há, nem medo de que um dia, como na lâmpada de Aladim, elas saiam a passear, desejando luz, e algo mais. Mas é uma escolha minha que elas sejam coisas guardadas.

Existem outras “coisas” que por terem uma dimensão tamanha, dentro da minha vivência emocional, espiritual, carecem de vitrines, de exposição, de que sejam comunicadas aos quatro ventos. Elas, nunca ganham outro lugar além do meu mundo interior, e meus cadernos, cadernos de papel, com linhas, com pautas… E que quiçá não serão vistos por outros olhos que não os meus.  Assim como minha experiência religiosa pessoal, aquela que muda o rumo da vida, nunca será exibida, as cartas também não.

As cartas não por que dizem muito de mim e de quem as escreveu. Colocam nossas almas ao desnudo, sem pudores, retratam momentos fugazes de liberdade, onde quem me escreve se permite deixar ir em letras.

Há “as” experiências espirituais, mágicas e religiosas,e muitas delas, não precisam ir ao mundo exterior, por que elas dizem algo apenas a mim, se revestem de valor apenas para mim, mudaram ou não apenas a mim… Então elas ficam também calidamente guardadas em compartimentos especiais.

Outras “devem” ser desfiladas, ensinadas, entre tanto para elas também há pessoas e pessoas para com quem compartilhar. Pois meus momentos podem não coincidir com os momentos delas, e o que se impregna de significância espiritual para mim, apenas ser notado por elas, sem repercussão alguma. Mas tendo sido o bastante em meu dia.

Sou assim, um ser que sempre teve essa habilidade, a de encaixotar, guardar, empacotar  coisas, e por isso sendo assim no mundo concreto, essa habilidade se repassa ao mundo interior, onde há mais de mil compartimentos, uns ainda por descobrir, outros já empregados, alguns em uso ativo, e pode ser que poucos nunca ocupados.

Há momentos, pessoas, circunstâncias, espaços para cada coisa, fato, sentimento, nem tudo o que vai por dentro pode ser apreendido com sua exata dimensão e peso por todos. Por isso alimento a arte de encaixotar, de empregar compartimentos, e permitir que as pessoas semelhantes às  minhas coisas, com elas enlacem diálogos.

Somos caixinhas de surpresas….

Eu cuido dessas caixinhas que somadas, se constituem na minha bagagem pessoal, íntima, particular.

 

Luciana Onofre

4 Comentários

  1. Luiza Frazão disse,

    18 18UTC Junho 18UTC 2008 às 6:47 pm

    Senti muita afinidade com o seu universo e tomei a liberdade de bloguear o seu texto sobre tecelagem. Espreite para ver se gosta do arranjo. Muito belo o seu texto. Obrigada.
    Um abraço
    Luíza

  2. Rachel disse,

    28 28UTC Junho 28UTC 2008 às 11:49 pm

    Você está numa caixinha muito especial… uma caixinha que eu não me canso de abrir, de ler, de ‘abraçar’.
    Amo.
    ^^
    kel

  3. luciana onofre disse,

    4 04UTC Julho 04UTC 2008 às 7:20 pm

    ahhhhhhhh o amor, é algo que se constrói, nós o edificamos kel querida!!!

  4. luciana onofre disse,

    4 04UTC Julho 04UTC 2008 às 7:26 pm

    Luiza é uma honra estar em seu blog!


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